NOVA ESPÉCIE DE MOSQUITO AEDES COLOCA EM ALERTA AS AMÉRICAS

A ameaça de epidemia que surge com uma nova espécie de mosquito Aedes (Aedes vittatus) detectada pela 1ª vez nas Américas

Aedes vittatus é nativo do subcontinente indiano, mas foi encontrado em Guantánamo, em Cuba, evidenciando como os deslocamentos causados pela globalização e as mudanças climáticas podem favorecer futuras epidemias.

Biovigilância de mosquitos em Guantánamo encontrou em 2019 o Aedes vittatus pela primeira vez no hemisfério ocidental — Foto: Ben Pagac

O Aedes vittatus é uma das 3,5 mil espécies de mosquitos encontradas ao redor do mundo — e, assim como o Aedes aegypti (transmissor da dengue e zika, por exemplo), capaz de carregar parasitas ou patógenos perigosos à saúde humana.

O perigo adicional é que o Aedes vittatus consegue carregar quase todas as perigosas doenças transmitidas por todos os mosquitos, com exceção da malária.

“Estar em contato próximo com esses mosquitos não é uma boa notícia”, diz Yvonne-Marie Linton, pesquisadora-diretora da Walter Reed Biosystematics Unit e curadora de quase 2 milhões de espécimes na coleção de mosquitos do Instituto Smithsonian, nos EUA.

Aedes vittatus é endêmico no subcontinente indiano, na Ásia, e até agora nunca havia sido avistado no continente americano.

Ele é “comprovadamente um vetor de vírus de chikungunya, zika, dengue, febre amarela e muitas outras doenças”, segundo a equipe que o identificou.

O mais provável é que as primeiras espécimes tenham viajado para Cuba na forma de ovos em algum contêiner de navio ou em uma aeronave. Provavelmente, sua proliferação no Caribe e sul dos EUA será também intermediada pelo homem: as mudanças climáticas estão encurtando os invernos da América do Norte, permitindo que os mosquitos procriem muito mais vezes em uma única temporada — consequentemente, espalhando mais vírus.

Aedes vittatus encontrado em Cuba; ele é vetor para doenças como febre amarela, zika e chikungunya — Foto: Ben Pagac

Mosquitos chamam muito menos atenção do que, por exemplo, as chamadas “vespas assassinas” identificadas em 2020 na América do Norte. Originárias do Japão, elas se espalharam pela região do Pacífico Noroeste norte-americano, matando colônias de abelhas.

“Há um paralelo entre as vespas assassinas e o Aedes vittatus no fato de que vieram de fora – estão em uma área onde não existiam antes”, afirma Ben Pagac, entomologista do Comando de Saúde Pública do Exército americano, que conduz biovigilância na região do Caribe.

O deslocamento do mosquito, diz ele, é uma lição a respeito dos perigos que o comércio e as viagens humanas oferecem à dispersão de doenças zoonóticas pelo planeta.

E, à medida que as mudanças climáticas deixam os invernos da América do Norte mais curtos e menos frios, Linton e seus colegas advertem em seu estudo que mosquitos podem, em breve, causar “epidemias que seriamente ameaçam a saúde pública”.

Aedes vittatus

Desde 2016, especialistas em medicina preventiva colecionam amostras de mosquitos encontradas ao redor da base de Guantánamo. A cada semana, é colocada uma armadilha, geralmente perto dos locais onde civis e militares dormem. A armadilha atrai os insetos com luz, e um ventilador os suga a um compartimento. Às vezes, são sugados até 3 mil insetos.

Depois de uma triagem, os mosquitos são enviados a um laboratório militar em Maryland, nos EUA, onde são analisados por pesquisadores.

Em junho de 2019, “olhando pelo microscópio, vimos que um deles parecia diferente”, explica Pagac.

“Tinha um padrão (de manchas brancas) no tórax que era completamente diferente de qualquer coisa que tivéssemos visto antes.”

Era o Aedes vittatus.

“Isso nos deixou de olhos esbugalhados: não era apenas algo estranho, mas que poderia ter sérias implicações de saúde.”

Depois de triagem em Guantánamo, mosquitos são levados para análise em laboratórios dos EUA — Foto: Ben Pagac

Imediatamente, Pagac alertou Linton.

A dupla então comparou o DNA desse espécime com o de outras populações de mosquitos e concluiu que sua provável origem é a Índia.

“Sabia que isso não era bom”, diz Linton. “Sabia que (o mosquito) era invasivo, nunca tinha sido visto nas Américas antes e é um vetor muito eficiente de dengue, chikungunya, zika e febre amarela.”

A descoberta do mosquito levantou uma questão importante: será que esse intruso em Guantánamo ser o culpado pelos surtos recentes de zika, dengue e outras doenças no Caribe?

Viagens globais

Para responder essa pergunta, Linton e sua equipe primeiro precisavam entender como o mosquito havia chegado a Guantánamo.

Eventos naturais, como furacões, são conhecidos por transportar mosquitos entre as ilhas caribenhas. Mas humanos, com seus caminhões, navios e aviões, podem inadvertidamente levar pequenos vetores de doenças como mosquitos de modo mais rápido e mais longe do que qualquer tempestade.

Linton e Pagac sabiam também que o Aedes vittatus é o que entomologistas chamam de “reprodutor em contêineres”.

“Seus ovos toleram a desidratação, podem ser levados de um lugar a outro e, assim que chegam em uma superfície de água, eles emergem”, conta Linton. “Se o clima for quente e úmido, eles sobrevivem.”

Essa característica fez Linton se recordar de outra espécie de mosquito que, 40 anos atrás, se espalhou da mesma maneira: o Aedes albopictus, o mosquito tigre asiático. No sul da Ásia, o mosquito havia sido vetor de dengue, febre amarela e chikungunya. Daí, em 1979, alguns de seus ovos foram transportados acidentalmente à Albânia em um carregamento de pneus usados, que costumam ficar largados em portos acumulando água — e criando um ambiente perfeito para o mosquito proliferar.

“Desde então, ele viajou e se estabeleceu em quase todos os países do mundo”, conta Linton.

Ela e seus colegas acreditam que possa estar acontecendo o mesmo com o Aedes vittatus. Cuba, afinal, é uma ilha – e contêineres de navios são perfeitos para transportar não só produtos, como ovos de mosquitos.

Para especialistas, só bio vigilância coordenada (como a feita acima em Guantánamo) é capaz de evitar proliferação de mosquitos perigosos à saúde humana — Foto: Alexandra Spring

Se não houver ação rápida de equipes de saúde pública, pode ser apenas uma questão de tempo até que o mosquito se espalhe mais. Essa ação tem de incluir a destruição de ambientes onde o mosquito procria, a pulverização de químicos ou bactérias em águas paradas e o uso de armadilhas.

Mas parte do que torna os mosquitos tão difíceis de serem contidos é que “eles se adaptam ao habitat e aos objetos humanos”, explica Linton. “Colocamos fontes de passarinhos e piscinas infantis nos jardins, e ali o mosquito aparece.”

Para dificultar, o vittatus pica durante o dia, o que significa que métodos tradicionais — como fechar portas e janelas e usar mosquiteiros para dormir – são ineficientes.

E apenas pulverizar inseticida não vai resolver o problema, adverte Pagac. É preciso incorporar medidas ao dia a dia, como eliminar todos os locais que possam armazenar água parada.

Em um mundo abalado pela Covid-19, tudo isso pode parecer um desafio complexo. Mas, para Linton e Pagac, não podemos deixar que seja uma oportunidade perdida para impedir a próxima potencial pandemia.

*Esta reportagem é parte da série Stopping the Next One (ou Impedindo a Próxima), que analisa quais doenças têm o potencial de causar a próxima pandemia global e os cientistas que estão tentando impedir que isso aconteça. Para ler a versão original desta reportagem em inglês na BBC Future, clique aqui. Esta reportagem foi apoiada com financiamento do Pulitzer Center.

VEJA A NOTICIA NO SITE G1

Um comentário sobre “NOVA ESPÉCIE DE MOSQUITO AEDES COLOCA EM ALERTA AS AMÉRICAS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s